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A História de Campinas está diretamente ligada ao surgimento de Sousas e Joaquim Egídio.  Estudos mostram as várias etapas de ocupação dos distritos, estabelecendo-se manchas de evoluções do traçado urbano no início do século 19, mas o processo de tombamento só ocorreu em 2003 a fim de garantir a preservação histórica para futuras gerações.

A preservação dos conjuntos urbanos dos distritos de Sousas e Joaquim Egídio visa, basicamente, o reconhecimento formal e legal pela comunidade do “valor cultural e ambiental”, preservando-se, dessa forma, sua significação enquanto registro remanescente arquitetônico urbano e rural, paisagístico, estético, afetivo e histórico o que atrai cada dia mais pessoas para esta região.

A política de preservação definida pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (CONDEPACC) – órgão que tem como função definir a política municipal de defesa e proteção do patrimônio histórico, artístico, estético, arquitetônico, arqueológico, documental e ambiental do município de Campinas – resulta em uma série de exigências que devem ser obedecidas pela sociedade.

Lei do Tombamento

Ato de reconhecimento do valor cultural de um bem, que o transforma em patrimônio oficial e institui regime jurídico especial de propriedade, levando-se em conta sua função social. Por meio do tombamento é concedido ao bem cultural um atributo para que nele se garanta a continuidade da memória. O tombamento não retira a propriedade do imóvel e nem implica seu congelamento, permitindo transações comerciais e eventuais modificações, previamente autorizadas e acompanhadas, além de auxílio técnico do órgão competente.

Confira os 13 Imóveis Institucionais e Públicos de Sousas e Joaquim Egídio:

- Subprefeitura de Sousas

- Igreja de São Sebastião

- Coreto da Praça São Sebastião

- Casa de Cultura e Cidadania Antônio da Costa Santos

- Ponte Ademar de Barros

- Monumento ao Imigrante

- Igreja de Santana e Casa Paroquial

- Hospital Cândido Ferreira

- Capela de Santa Cruz

- Posto Policial

- Casa do Cardeal Dom Agnello Rossi

- Capela de São Joaquim e São Roque

- Ponte Padre Abel

A fundação de Sousas foi em 1830 e teve o seu início quando Aleixo Antônio de Godoy e Bernardo José Sampaio, imbuídos do mesmo espírito aventureiros, nômades por índole, eles não se contentaram em ficar ali e resolveram construir uma ponte de madeira.
Foi assim que José Floriano de Camargo e membros da família Sousas, sabedores das boas qualidades das terras, vieram adquiri-las juntando-se aos primitivos povoadores. Foi crescendo e se transformou em um pequeno arraial que se tornou conhecido como “Ponte do Arraial”, a ponte mais conhecida de Sousas.
A introdução da cultura do café em meados do mesmo século, trouxe nova dinâmica econômica para a região, atraindo mais moradores, inclusive os imigrantes italianos.
Em 1889 os moradores ergueram o primeiro templo do então arraial de Sousas, uma capela consagrada a São Sebastião, ainda preservada na pracinha em frente á sub-prefeitura.
A vida seguiu tranqüila e sempre seguirá o ditado: “SOUSAS É O PEDAÇO DO CÉU NA TERRA”. Vamos preservá-lo, dizia Antônio Carlos Couto de Barros (in memóriam).

Cristiane Prestes

* Texto publicado no Jornal Local em 12 de setembro de 2006

“O Arraial dos Souzas, embellezas naturaes, não é talvez o menos favorecido do Estado de São Paulo, apezar de estar collocado entre collinas que lhe destroem a perspectiva e limitam-lhe o horisonte. E’ um logar magnifico para se viver; o clima é delicioso, mais saudavel não existe; alli não ha molestias endemicas, nunca foi atingido pelas epidemias que têm assolado outras povoações do estado” (Escrito de um “cavalheiro residente naquella localidade”, Almanach de Campinas para 1900, organizado por Leopoldo Amaral, Casa Livro Azul/Castro Mendes & Irmão, Campinas, 1900, pp. 71-72)

A fundação de Sousas iniciou-se em 1830 pelos sertanejos Aleixo Antonio de Godoi e Bernardo Sampaio, ao se estabelecerem às margens do Atibaia, onde encontraram farta caça e pesca, além de magnífica beleza natural. Para continuar sua descoberta, construíram uma ponte de madeira a fim de transporem o rio. Decidiram estabelecer-se no local, iniciando uma povoação que logo desenvolver-se-ia.
As condições naturais da região atraíram novos moradores, como Augusto Fornaleiro, Manoel Antonio de Moraes, João Floriano de Camargo e membros da família Souza. Segue abaixo os dados biográficos encontrados sobre alguns dos fundadores da localidade, extraídos da Monografia Histórica e Estatística do Distrito de Sousas, de Zuleika Godoi Gomes:
- Bernardo José Sampaio: nascido na Vila de São Carlos (Campinas), em 1797, era genro de José de Sousa Campos. Exerceu o cargo de vereador entre os anos de 1833-1836 e 1845-1848, tendo favorecido também a cultura cafeeira. Faleceu em 16 de Janeiro de 1855;
- Mano(u)el Antonio de Morae(i)s: nascido na Vila de São Carlos, em 1811, era bisneto de João de Sousa Campos. Faleceu em torno dos 50 anos, em 8 de setembro de 1861;
- João Floriano de Camargo: irmão de Bernardo Sampaio, faleceu em 1850;
- José de Sousa Campos (major): nascido em 13 de junho de 1797, na vila de São Carlos, eminente na história e política da cidade. Era bisneto de Barreto Leme e Sousa Siqueira, ambos fundadores de Campinas. Exerceu os cargos de sargento-mor, procurador do Conselho (1822) – em que participou do evento da Independência política do país – e foi vereador entre 1837-40 e 1841-44; período em que a Vila de São Carlos foi elevada à cidade de Campinas. Era proprietário da fazenda Atibaia, na qual plantou cafezais, sendo por isso considerado um dos pioneiros da implantação da cultura cafeeira na região.
- José de Sousa Siqueira (capitão): nascido na povoação de Campinas do Mato Grosso (Campinas), em 1775, filho de João de Sousa Campos e D. Ursula da Silva Guedes, neto de Barreto Leme. Obteve grande destaque e prestígio social e político. Exerceu o cargo de vereador entre os anos de 1802-03 e em 1810, tendo sido Juiz Ordinário e Presidente da Câmara entre 1812-19 e no ano de 1828. Siqueira obteve, em 1796, concessão da sesmaria e, em 1797, estabeleceu-se com sítio de cultura, em Ribeirão de Anhumas. Nas terras recebidas por sesmaria, formou a fazenda Atibaia – às margens do rio que possui o mesmo nome. Seu filho, José de Sousa Campos, herdou a fazenda e, em 1858, após sua morte, deixou-a para seu genro, João Batista Camargo Damy. Esta fazenda ainda hoje é conhecida como João Damy e grande parte das terras da antiga Fazenda Atibaia representam parcialmente o perímetro urbano do atual Distrito de Sousas. José de Sousa Siqueira e Bernardo Sampaio, proprietários das Fazendas Atibaia e Palmeiras, introduziram a cultura cafeeira no Distrito, em 1830 – data do início da povoação da região.
Aos poucos, o povoado tornou-se arraial, conhecido como “Ponte do Arraial” e “Ponte do Atibaia”. Em 1889, houve a mudança do nome para “Arraial dos Souzas”, devido ao fato de muitos moradores serem descendentes de membros da família de sobrenome Souza. Esta proposta do vereador Dr. Ricardo Gumbleton Daunt visava homenagear a família que contribuíra para formação e desenvolvimento da localidade. Em 1896, o então deputado estadual Dr. Alberto Sarmento pediu informações sobre a localidade ao professor João Brenn , a fim de elevar o Arraial a Distrito de Paz. Em conseqüência, no dia 24 de julho deste mesmo ano, houve a criação de seu cartório de paz e a eleição dos seguintes juízes: Alfredo Augusto do Nascimento, João de Souza Campos e Luiz Damy. Porém, o cartório de paz só iniciou seu funcionamento em fevereiro de 1897.
Em 1944, através do decreto nº 14.334 de 30 de novembro do referido ano, houve uma nova mudança do nome: de “Arraial dos Souzas” para somente “Sousas”.

Cristiane Prestes

* Texto publicado no Jornal Local em 12 de setembro de 2006

“O mundo dos velhos, de todos os velhos, é, de modo mais ou menos intenso, o mundo da memória. Dizemos: afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos”. (Norberto Bobbio, “O tempo da memória”)

Os povos antigos costumavam cultuar as pessoas mais velhas de seus povoados. Assim, os cargos de magistrados e de autoridades mais importantes gregas e romanas eram ocupados pelos mais velhos. Na Grécia, o conselho supremo do Senado era denominado de “Assembléia dos Anciãos”. Em Roma, Antonino Pio foi Imperador dos 52 anos até sua morte, aos 75 anos. Ápio Cláudio Cego foi considerado uma grande personalidade da República Romana, exercendo cargos durante sua velhice. Entre os povos antigos da América, também pôde-se observar a importância atribuída aos antigos – valorizados por sua experiência e respeitados por sua sabedoria. Tem-se notado, com grande freqüência, um típico fenômeno social moderno: a crescente e preocupante desvalorização do idoso concomitantemente com o aumento da expectativa de vida da população. No Brasil, a gerontologia (estudo da velhice) é, relativamente, nova e pouco explorada. Observa-se o descaso e desrespeito com os idosos e as freqüentes e infundadas reclamações de serem teimosos, repetitivos, doentes, esquecidos. Os filhos e netos não têm paciência com seus pais e avós. Os jovens não cedem seus lugares nos ônibus e bancos para os idosos. Não há uma preocupação pública acerca da melhoria da infra-estrutura de transporte, comunicação, atendimento público e hospitalar que atenda a população idosa. A internação do parente mais velho em asilos e casas de repouso tem sido a opção mais utilizada. Infelizmente, a escolha destas instituições nem sempre se justifica pela atenção e cuidados que o idoso necessita em função de determinadas doenças, mas, sobretudo, como uma forma de livrar-se de um “fardo”. Nestas instituições, são raramente visitados por seus familiares. E a falta de carinho e convívio com pessoas e lugares conhecidos contribui para piorar ainda mais as condições fisiológicas, psicológicas e sociais do internado.
Atualmente, muitos estudos têm comprovado a melhoria da qualidade de vida dos idosos quando recebem atenção, carinho, dedicação e ocupam seu tempo ocioso com atividades adequadas às especificidades da idade e prazerosas para o indivíduo. A terapia ocupacional e a gerontologia são áreas que trabalham especialmente com o desenvolvimento destas atividades. Os resultados são extremamente favoráveis, inclusive em casos de doenças como Alzheimer, Parkinson e câncer. Este artigo é um apelo desesperador aos leitores para que dêem atenção, carinho e cuidado a seus parentes, conhecidos e desconhecidos idosos. Pessoalmente, pude acompanhar o relato de histórias pessoais de habitantes de nossa região. Se, como destacou Norberto Bobbio, “somos o que lembramos”, posso assegurar que estas pessoas são, efetivamente, parte fundamental da história de nossos distritos: “As netas e bisnetas já não acompanham mais os costumes das antigas. O que as italianas costumavam fazer muito, naquela época, era pegar o café em grãos, porque não tinha, naquele tempo, café em pó. Daí tinha que torrar e, depois de torrar no forno, tinha que moer no moinho que encaixava na mesa e era assim que elas que faziam o café em casa. Outra coisa que faziam também era polenta e usavam tacho também para fazer doce, como doce de goiaba. Então, colocavam tudo num tacho de cobre e no forno de lenha e ficava mexendo para sair a goiabada. E faziam goiabada porque não precisavam comprar, achavam goiaba em todo lugar”. (Dionísio Mingatto, 75 anos) / “Bom, quando cheguei aqui, fui morar numa pensão que chamava ‘Hotel Floresta’, que ficava na rua 13 de Maio. Os donos eram D. Amélia e o Sérgio Pissolato, que era o marido dela. E o Sérgio tocava também o sax e gostava de movimentar. Então, no sábado à tarde, quase todo sábado à tarde, ele movimentava ali no Hotel, no salãozinho que tinha lá. Como a gente era moço novo, vinte e poucos anos de idade né, e muitas moça iam lá, a gente dançava e passava o tempo”. (Vittorio Palumbo, 71 anos) / “Tinha brincadeira com biri, uma semente que dava numa árvore bonita. Tá cheio aí na estrada de Joaquim Egídio, onde o pessoal anda, faz caminhada, tem muito birizeiro. Então, você abre, tira aquela semente e depois você jogava. Ela bate na parede e volta. A que ficava mais próxima da parede ganha o biri do outro. A gente fazia saquinho de biri, e também jogava com tampinha de garrafa”. (Hélio Beltramelli, 62 anos) / “Antigamente, no Atibaia, a gente pegava dourado na ponte. Tinha lambari no mês de outubro. Conheci Sousas quando só tinha um pouco de calçamento e o resto era terra. Cheguei até a ver um pedaço da ponte derrubada em 32 e que depois foi refeita. Aí, foi mudando, as fazendas foram picadas para virar condomínio e o distrito cresceu” (Antonio Zanatta, 66 anos) / “Naquele tempo, sete horas já tava escuro ainda né? O senhor Fidéli dizia assim: ‘Meu filho sabe o que eu vou contar para você? A noite agora é mais clara do que antigamente’. E a gente falava: ‘Por que seu Fidéli?’. Ele dizia: ‘Porque agora tem os clarões de São Paulo, Campinas, aquela claridade e agora num se vê mais nada. Naquela época, só se via vaga-lume no ar à noite’.” (Paulino Jeromel, 84 anos) / “O baile era à tarde. No meu tempo, as moças não dançavam descalças, mas antes, minhas irmãs dançavam descalças. Tinha sanfona, tinha pandeiro e, às vezes, tinha também o bumbo, o clarinete, dependia do que vinha, não sei. Mas sempre tinha sanfona e pandeiro. Tinha marcha, valsa, samba e rancheira também”. (Teresina Jeromel, 77 anos)
Apesar de não possuírem uma idade avançada, é louvável observar as formas pelas quais ocupam seu tempo e trabalham sua mente. Exercitando a memória, a partir da rememoração das lembranças de um passado nostálgico e sempre presente, os senhores Dionísio Mingatto, Vittorio Palumbo, Hélio Beltramelli, Antonio Zanatta, Paulino e Teresina Jeromel, certamente, postergam seu envelhecimento, cultivam seu espírito jovem, contribuem para a manutenção da história de sua região, de suas tradições e de sua família, mas, acima de tudo, garantem uma ótima colheita de frutos em sua velhice.

Cristiane Prestes

* Texto publicado no Jornal Local em 29 de agosto de 2006

Natureza Sublime

De recurso para o progresso material à direito constitucional
\”(…). O terreno é montanhoso, mas fertil, e excellente o clima. O Arraial conta com cerca de 200 predios collectados, em 10 ruas e 2 largos. A matriz local vae ser reformada. Conta o Arraial, em seu perimetro, o florescente povoado de Joaquim Egydio, com uma boa egreja dedicada a S. Joaquim e que vae sendo construida graças á boa vontade de dignos cidadãos, mais de 70 predios collectados e boas casas de negocio; a estação de Cabras, tambem florescente, etc.\” (\”Arraial dos Souzas\”, in: MELILLO, Vicente e OCTAVIO, Benedicto (orgs.),Almanach Historico e Estatistico de Campinas, Campinas, Casa Mascote, 1912)
\”(…). Era a natureza maravilhosa e terrível, sempre em atalaia contra os ameaçadores da sua virgindade. Era assim, porque há séculos e séculos o Criador a fizera assim. Mas um dia o cafèzal, pressionado pelo homem, acabaria por destruir a imponência da floresta. Levaria tempo, isso levaria; mas era fatal. Quem o prenunciava? Eram o progresso e a necessidade, de mãos dadas com a volúpia; aquêles bisonhamente, esta ousadamente, acabariam matando a floresta, afinal\” (SEVÁ, José, Êles Vieram de Longe, 1961, p. 56).
A relação do ser humano com a natureza baseia-se atualmente em um estranho paradoxo: para preservá-la, mantendo-a pura e livre do prejudicial contato com o homem, é necessário ocupá-la. É por isso que as paisagens que mais nos parecem selvagens e intocadas, apenas o são por serem produtos de nossa cultura. Foi nossa percepção transformadora que estabeleceu a definição do que seria considerada uma paisagem pura e selvagem. A partir desta definição, separamos as áreas selvagens do convívio humano, colocando-as sob proteção demarcada de muros e cercas de parques e reservas governamentais. É difícil determinar o exato momento em que passamos a utilizar a natureza a nosso serviço. No entanto, certamente, desde o século XVIII, pensadores como Locke e Rousseau analisavam o poder do homem como transformador da natureza, buscando compreender a partir de quando a percepção do homem muda e ele começa a criar meios para transformar o ambiente que habita e não mais se modificar em função do mesmo.
Cada cultura tem seus mitos próprios, bem como uma relação singular com a natureza, por isso que determinados povos adotam refenciais específicos de simbolismo para sua cultura – os portugueses, por exemplo, tem uma forte ligação com o mar. As diversas variações do mito da natureza intocada talvez esteja presente, de alguma forma, em muitas culturas ocidentais e a criação de parques e reservas nacionais está relacionada à preocupação com a preservação destes locais mitológicos. Observar o caso de nossa região, que em poucos séculos teve seu ecossitema profundamente alterado, em função, sobretudo, das plantações de café, serve de guia para compreendermos a devastação da Mata Atlântica no Brasil. O terreno montanhoso, porém fértil, como advertia B. Octavio e V. Melillo, foi extremamente propício para a cultura cafeeira, o que contribuiu para a prosperidade da região. Aos poucos, o homem foi vencendo a imponência e os perigos da floresta densa e abrindo caminho para seu próprio \”progresso\”, rumo à destruição de seu habitat – como descreveu J. Sevá, em seu romance autobiográfico sobre a história da implantação de sua família de colonos italianos em Joaquim Egídio. A plantação de café demandava um grande desgaste dos recursos naturais e sua introdução no século XIX, para a Mata Atlântica, representou uma ameaça mais intensa do que os eventos ocorridos nos três séculos de colonização anteriores.
O Estado brasileiro, contudo, só iniciou uma legislação ambiental no século XX: o Código Florestal, de 1934, estabeleceu os primeiros conceitos de Parques Nacionais, Florestas Nacionais e Florestas Produtoras. Após três anos, o primeiro Parque Nacional – Parque Itatiaia – foi fundado. Em 1965, o Código Florestal Brasileiro estabeleceu a divisão das áreas de preservação entre as que permitiam a exploração dos recursos nacionais e as que proibiam. A Constituição de 1988 recebeu um capítulo acerca do Meio Ambiente, em que afirmava todos terem direito \”ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações\” (Cap. VI, Art. 225). Para assegurar este direito, em 18/07/2000, criou-se o Sistema de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). A Área de Proteção Ambiental (APA), segundo Cristina Mattos, surgiu no Brasil no início dos anos 1980, como um dos tipos de Unidade de Conservação. A APA representa uma das contribuições brasileiras ao cenário mundial da legislação ambiental e corresponde a uma extensa área natural, possuindo um certo grau de ocupação humana. Dotada de elementos bióticos e abióticos importantes para o bem-estar da população, a APA pode ser constituída de terras públicas ou privadas. No próximo artigo, acompanharemos a história da APA de Sousas e Joaquim Egídio.

Cristiane Renata de Lima Prestes

* Texto publicado no Jornal Local em 23 de agosto de 2006

“Salve, o Atibaia tá vivo / Mesmo estando ferido,
Ele ainda respira.
Salve, o Atibaia tá vivo/ Mesmo tão maltratado,
Dá sinais que tá vivo.
Quem conhece o Atibaia / Sabe o bem que ele faz
(…) Pescador tá pescando/ Um dedinho apontando
Tem peixinho pulando / Tem criança brincando”.
(Edu Passeto, “Atibaia Encantado”)

O rio que passa pelo Distrito de Sousas, correndo de sudeste para noroeste, que contribuiu para o estabelecimento de um povoado e abastece a cidade de Campinas, o rio Atibaia, “mesmo estando ferido”, “mesmo tão maltratado”, ainda está vivo, ainda respira. Suas águas cristalinas de outrora, presentes nas descrições do bucólico “Arraial dos Souzas”, eram utilizadas nas demarcações geográficas naturais do próprio Arraial:
“Suas divisas fazem parte da fazenda de Avelino Teixeira, à beira do Atibaia e no limite com Itatiba, até a fazenda de Franklin Nogueira, descem pelo Jaguary até a fazenda Macaco Branco, seguem pela estrada até o espigão que desagua para o Atibaia, na Fazendinha; continuam pelo mesmo espigão até a estrada velha de Itatiba, perto da fazenda da baronesa de Atibaia; dahi, por essa estrada, até a ponte do Padre Abel, no Atibaia, e pelo rio até o ponto de inicio” (“Arraial dos Souzas”, in: Almanach de Campinas para 1908, organizado por José M. Ladeira e Benedicto Octavio).
O Atibaia tornou-se personagem de destaque na história de Sousas e ainda resiste na memória coletiva de nossa região, apesar do acúmulo de lixo e ejetos poluentes, que tornam suas águas sujas, contaminadas e impróprias para banho e pesca. O rio por muito tempo foi cenário das brincadeiras das crianças, das competições de regatas e de encontros familiares e entre namorados. O Atibaia já recebeu homenagem em forma de poesia e música. Em 1975, Raimundo Alberico Maglio escreveu um texto sobre o rio que foi publicado no “Sousas em Revista”, livro organizado pela então diretora da EEPSG Tomás Alves, Antonia Bombach. Em 2003, recebeu destaque do músico Edu Passeto, que lançou o CD “Atibaia Encantado” – Projeto Outras Trilhas, em parceria com a Casa de Cultura de Sousas. Para finalizar este artigo, deixamos a transcrição do belo Rio Atibaia de Raimundo A. Moglio:
“Esbatendo-se aqui furiosamente de encontro aos rochedos denegridos, levantando ali pequeninas ondas de espumas, marulhando acolá vagarosamente através das nódoas sombrias onde se ostentam plantinhas débeis e viçosas, ei-lo a correr em demanda do oceano, cortando o seio das florestas, rasgando a vastidão das Campinas, num contínuo e monótono sussurrar.
Ao atravessar Sousas, quando esta ainda dorme placidamente submersa na tenebrosidade que principia a dissipar-se ao primeiro reflexo anunciador do dia, já a passarada, em revoluteiros, esvoaça festivamente por sobre o rio, beija-lhe o dorso a cada momento, acariciando com o leve resvalar das asas na superfície azulada das águas límpidas e transparentes.
E o Atibaia, maravilha incomparável de minha terra, em cujas águas se espelham claramente as maravilhas celestes, desliza indiferentemente num marulhar constante e suave, murmurando aos verdes ramos que se estendem ao correr de suas margens, em misteriosa linguagem, os seus impenetráveis segredos, e assim até perder-se na distância como um traçozinho negro quase imperceptível”.

Cristiane Renata de Lima Prestes

* Texto publicado no Jornal Local em 23 de junho de 2006

Representando quase 30% do território municipal e compreendendo integralmente Sousas e Joaquim Egídio, a Área de Proteção Ambiental (APA) de Campinas preserva um território de características singulares. Os remanescentes da vegetação natural da Mata Atlântica possibilitam a sobrevivência de várias espécies de animais ameaçadas de extinção e inclusive a existência de uma nova espécie de perereca (Hyla hiemalis). Além do clima diferenciado, a região possui uma topografia acidentada, com afloramentos rochosos graníticos e destaque para os recursos hídricos que garantem abastecimento de água e geração de energia da região. Os aspectos culturais diversificados, com celebrações típicas, patrimônios desde o período de sua formação e a manutenção da tradição rural foram também considerados particularidades que deveriam ser preservadas.
Em função destas especificidades, desde o começo da década de 1990, foram elaboradas propostas de preservação dos patrimônios. Em 91, realizou-se o Primeiro Fórum Ecológico de Sousas, a fim de levantar as reivindicações da comunidade. Após dois anos, por meio de Decreto Municipal, foram criadas as APAs de Sousas e Joaquim Egídio. Formaram-se grupos de trabalho para discutir questões sobre o patrimônio natural e cultural e sobre educação ambiental e o produto das reuniões foi uma proposta de seu planejamento/gestão e a criação do “Centro de Referência Ambiental de Joaquim Egídio”. Nos anos seguintes, realizaram-se seminários para a elaboração de um novo documento que produziu o Plano Local de Gestão.
Segundo Cristina Mattos, as características da APA não favorecem uma ocupação humana intensiva, por isso, busca-se a garantia da não degradação frente às ambições de desenvolvimento que podem causar grande impacto nas particularidades ambientais e culturais. Para saber mais informações sobre a criação da APA e seu Plano de Gestão, consultar a pesquisa utilizada de Mattos, disponível no site: www.apacampinas.cnpm.embrapa.br/

Cristiane Renata de Lima Prestes

* Texto publicado em 23 de junho de 2006

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